EDITORIAL

O jornal “A voz da infância” foi lançado em 1936, por iniciativa de Lenyra Fracarolli, na Biblioteca “Monteiro Lobato” e editado até julho de 1984.

Este mês está sendo relançado.

Seu relançamento é um dos objetivos do Projeto “Quero escrever”, um desdobramento do Projeto “Quero Ler”, que tem como objetivo a formação de monitorias para as salas de leituras existentes no Departamento de Bibliotecas Infanto-Juvenis do Município de São Paulo.

Nele trabalho eu e Ana Lúcia Brandão.

Acreditamos que as salas de leitura, artes, jogos e discos, são o espaço necessário e privilegiado, para que os freqüentadores, jovens e crianças, iniciem a busca do seu gesto, sua voz, sua palavra, seu desenho, sua imaginação e sua fantasia.

Gostaríamos que o “Voz da infância” fosse o veículo de comunicação dessa busca, que é nossa também.

Sendo este um número de relançamento, alguns esclarecimentos se fazem oportunos:

Optamos pela impressão dos textos com a própria letra da criança, contendo rasuras, imprecisões, medos, alegrias e descobertas, para que, reconhecendo o próprio texto, ela reconheça a si mesma, como indivíduo e parte integrante e fundamental de uma comunidade.

Aparecerão alguns erros de gramática, ortografia e concordância, cuja correção será, na medida do possível, uma auto-correção, quando o autor, lendo em voz alta o texto produzido (individualmente ou em grupo) perceber o próprio erro ou vê-lo apontado pelos colegas.

Como sabemos que o simples apontar de erros aumenta a inibição e o medo de criar e acreditamos que uma aproximação afetiva com a palavra será o elemento detonador do desejo de escreve-la corretamente, a correção será feita obedecendo os seguintes critérios:

1- O processo, nessa fase de iniciação do ato de escrever, é mais importante que o produto, porque o jovem criador esbarra em muitos bloqueios e inibições e nossa função é a de mediar essas dificuldades, procurando ajudá-lo a enfrentar o desafio de criar.

2- A nossa interferência nesse processo será gradual e personalizada, procurando encontrar uma adequação entre o potencial, o empenho e o interesse de quem cria, com o resultado obtido.

3- A publicação dos textos no jornal não deve ser considerada como um prêmio aos melhores, uma vez que não é seu objetivo ser um concurso permanente, nem objetivo do Projeto a formação de profissionais do ramo. Entre a intenção e a expressão existe um abismo, uma viagem, uma interrogação e uma paixão. Uma vez que o resultado será a junção dos trabalhos realizados nas oficinas e os enviados pelas Bijs, sua linha editorial está mais para uma colcha de retalhos ou caleidoscópio, que para uma linha reta, que não encontra hesitações à beira do caminho.

Até lá.

Sylvia Manzano

Outubro/1986

 

BIBLIOTECA INFANTO-JUVENIL MONTEIRO LOBATO

A VOZ DA INFÂNCIA
Um jornal de criança para criança

ANO 95 – N°01 – FUNDADO EM 1935 – MÊS: ABRIL/95


ENTREVISTA ESPECIAL COM A ESCRITORA SYLVIA MANZANO

Nessa entrevista ela conta tudo: planos para 1995, seus dois livros, projetos, vida, Biblioteca Monteiro Lobato, e acima de tudo, não nega fogo...

Williams Luís: Quando lançou seu primeiro livro?
Sylvia Manzano: Foi em 1992 pela Editora Dimensão de Belo Horizonte.
Williams Luís: O que mais a inspirou a escrever este livro?
Sylvia Manzano: Foram dois livros. “ O Circo do Meio-Dia” foi uma tarefa do meu professor de poesia, que pediu para que a gente fizesse poesia para criança. A “Carta Para Carolina” foi uma carta que eu realmente escrevi para minha sobrinha. Como a mesma tinha seis anos na época, achei que ela não ia entender nada e a carta foi para a gaveta. Até que um dia ela foi publicada.
Williams Luís: Quando estará lançando seu próximo livro? Qual o título?
Sylvia Manzano: São dois novamente: “Tereza e Suas Rendas” e “É Feriado”. Os textos já estão ilustrados e, segundo a minha editora, os fotolitos já estão prontos. Agora é só esperar a impressão, que é feita aqui em São Paulo pela FTD. Espero que, o mais tardar, em março eles estejam prontos.
Williams Luís: Quais são seus futuros planos para 1995?
Sylvia Manzano: Dar cursos de redação, publicar outros textos que já estão escritos, escrever para revistas e jornais e, se Deus me ajudar, conhecer o Caetano Veloso neste ano que ora se inicia.
Williams Luís: Para quem pretende dedicar os livros que você acaba de escrever?
Sylvia Manzano: Calma aí, deixa eu lembrar (risos)... Eu não lembro, mas tenho a impressão de que já passei um fax para a editora dizendo para quem eu os dedicaria.
Williams Luís: O que você espera para 1995?
Sylvia Manzano: Tenho a impressão de que acabei de responder a essa pergunta, mas como você não me escuta mesmo...
Williams Luís: O que achou de 1994?
Sylvia Manzano: Ocorreram grandes e importantes mudanças na economia e na política de nosso país. Particularmente para mim foi importante um curso que fiz na FUNDAP, centrado na questão dos meninos de rua.
Williams Luís: O que você acha do jornal “A Voz da Infância”?
Sylvia Manzano: Acho ótimo que exista um meio de comunicação entre os freqüentadores da biblioteca.
Williams Luís: O que sinceramente precisa melhorar?
Sylvia Manzano: Acho fundamental a continuidade do processo. Se for publicado com freqüência regular, divulgado nas BIJs e nas escolas municipais, além de aceito e desejado pelos leitores, o resto virá por conseqüência. O que não dá é publicar e ficar esperando que os resultados caiam do céu.
Williams Luís: O que acha da Biblioteca Monteiro Lobato?
Sylvia Manzano: Eu tenho a seguinte definição da biblioteca: a biblioteca é a residência oficial das fadas, das bruxas, dos gnomos, das madrinhas e de todos os menininhos e menininhas que um dia se perderam na floresta...
A minha pergunta hoje em dia é: onde estão os meninos e meninas que deveriam estar percorrendo nossos corredores, pintando portas e paredes e habitando esta casa?
Williams Luís: O que realmente precisa melhorar?
Sylvia Manzano: Que tal começar com uma pesquisa junto a todos os funcionários da biblioteca? Trocando em miúdos, uma andorinha só não faz verão...
Williams Luís: O que acha da juventude de hoje?
Sylvia Manzano: Tirando as “patricinhas” e “mauricinhos”, que acreditam que o mundo existe apenas para a satisfação de seus próprios desejos, acho que a juventude de hoje é bonita, alegre e dedicada à busca de seus objetivos.
Williams Luís: Como você encara seus leitores?
Sylvia Manzano: A razão da minha busca existencial.
Williams Luís: Qual o tipo de música que ouve?
Sylvia Manzano: Adoro jazz, blues, reggae, reggae, reggae...
Williams Luís: O que mais te inspira a escrever?
Sylvia Manzano: Amar sem ser correspondida!
Williams Luís: O que mais gosta de ler?
Sylvia Manzano: Cortàzar, Manuel Bandeira, Drummond, John Fante, (pausa) Heidegger e Sartre.
Williams Luís: Qual o escritor que é supra-sumo para você?
Sylvia Manzano: Cortàzar.
Williams Luís: Qual seu passatempo predileto?
Sylvia Manzano: Jogar conversa fora.
Williams Luís: Como está a política cultural?
Sylvia Manzano: Isso existe?
Williams Luís: Para finalizar nossa entrevista, qual a mensagem que gostaria de transmitir a nossos leitores?
Sylvia Manzano: Vocês estão convidados a vir aqui na biblioteca para conhecer o jornal “A Voz da Infância”, participar da equipe de colaboradores coordenada pelo Williams, ler os livros que estão à disposição em nosso acervo e participar das demais atividades oferecidas.