Crônica quiçá pouco pertinente de um carnaval passado no Sítio

 

É carnaval, no ano de 1995, na República Federativa do Brasil.
E cá estou eu, gripada, rouca e com os dois pés, o esquerdo e o direito, inchados e doloridos, fazendo escalda-pés com sal e vinagre.
Passei Vick-Vaporub, coloquei meias quentes de lã e pantuflas confortáveis.

Dir-se-ia (hoje é terça-feira gorda), que passei o carnaval na Marquês de Sapucaí.
Qual o quê!
Passei o carnaval no Sítio do Pica-pau Amarelo, premida pela necessidade de entregar as resenhas para a Editora Brasiliense, que precisa saber logo o número total de caracteres, para poder orçar a Bibliografia sobre o Monteiro Lobato, que a Biblioteca “Monteiro Lobato” prepara com carinho, para ser lançada no dia 18 de abril, dia do aniversário dele.
Eu, que, no ano da graça de 1995, ainda conservava um pé no Romantismo, estou agora com os dois dulcissimamente doloridos, de tanto correr atrás e tentar alcançar o ritmo e a velocidade com que as coisas acontecem no sítio, ou seja, no movimento modernista, que meio a reboque e a toque de caixa chegava ao Brasil.
Mas não no sítio.
No sítio, noblesse oblige, tudo acontece comme il faut, sem precisar passar pela perplexidade de dizer:
“Stop
A Vida parou.
Ou foi o automóvel ?
"
No sítio, Monteiro Lobato sabia desde sempre que, como “de repente ficaria chato ser eterno, ele agora seria moderno.”
Subvertendo a ordem vigente neste país, que, às vezes, não enxerga um palmo diante do nariz, Lobato quiz ser eterno e escreveu "Reinações de Narizinho".
Depois quis ser moderno e escreveu “O Poço do Visconde”.
Realizou casamentos impossíveis entre o sol e a lua e foi poeta. Adentrou a mata virgem, capturou o saci e fez magia.
Fez psicanálise, porque, desde então, vislumbrou a felicidade no horizonte do possível.
Foi marxista, pródigo e generoso na distribuição das riquezas que possuía.
Finalmente, sussurrou no ouvido do Caetano Veloso, a frase que ele diria, décadas depois:
- Gente é prá brilhar.
No sítio, por suposto, todo mundo brilha.
Todos estão perfeitamente adaptados às suas funções: Emília, Pedrinho, Narizinho, D. Benta, Tia Nastácia, o Marquês de Rabicó, o Visconde de Sabugosa, o Tio Barnabé e etc.
Todos se auto-conhecem, sem alarde: sabem que tem uma tarefa a cumprir nesta vida e a cumprem com beleza, inteireza, graça e sabedoria.
Em tempo: coube a Nastácia, um brilho um pouco maior que todos: ser a narradora no livro sobre o folclore, que é a voz do povo.
Coube a Emília, a tarefa feliz de ser a menina dos olhos do Lobato, graças a Deus, muito bem protegida por tão vastas sobrancelhas...
Engulo a inveja e olho para meus pobres pés cansados, de percorrer essa velocidade, essa plenitude, essa felicidade.
O que eles querem agora é ficar naquela posição com que Pedrinho gostava de ler os jornais.
Porque, afinal de contas:
“Hora de comer
comer
Hora de dormir
dormir
Hora de trabalhar?
Pernas para o ar que ninguém é de ferro!”

Quanto a mim, nessa confusão toda, acabei me apaixonando perdidamente pelo representante do noivo da Emília: o Senhor Vidro Azul.
Quero casar-me com ele.
Desta vez, comigo, ele não será o representante do noivo, será o noivo mesmo.
Nosso noivado será discreto, elegante e sutil.
E seremos felizes para sempre ou até que a morte do amor nos separe.


LOBATO, Monteiro. Reinações de Narizinho. São Paulo: Brasiliense, 1982. Este é o primeiro livro de Lobato, que dá início à saga do Sítio do Pica-pau Amarelo. É aqui que Narizinho conhece o príncipe Escamado, do Reino das Águas Claras. É aqui que a Dona Aranha faz-lhe um vestido tão bonito para a festa do casamento, que o espelho racha de admiração. É aqui que se revela a ternura de Lobato pela palavra, quando descreve a festa:“E canários cantando e beija-flores beijando flores, e camarões camaronando, e caranguejos caranguejando, tudo que é pequenino e não morde, pequeninando e não mordendo.” É aqui que Emília começa a falar por artes do Doutor Caramujo que “tem uma pílulas que curam todas as doenças, exceto quando o doente morre.” É aqui que Emília pode deixar que toda sua “fala recolhida” se expanda até encontrar a sua melhor expressão. É aqui que acontece o impagável casamento da Emília com o Marquês de Rabicó e o aparecimento do Visconde de Sabugosa. Neste volume, cada capítulo, nomeado e subdividido em partes, pode ser considerado um livro com começo, meio e fim. Desta forma, a leitura do Lobato é extremamente agradável, podendo ser interrompida sempre às nove horas, como explica D. Benta todas as noites. As situações são tão engraçadas e as marcações já vêm tão prontas, que fica inevitável a sua encenação em teatro. Sem dúvida, o sítio é o lugar privilegiado, onde todas as crianças do Brasil, mereceriam ir passar as férias.

LOBATO, Monteiro. O saci. São Paulo: Brasiliense, 1982. Neste livro, Monteiro Lobato pousa o olhar sobre dois joão-de-barro, que eram “tão amigos, que até pra cantar cantavam a 2 mãos”. (...) “certo ano o casal resolveu construir um ninho novo em outro galho da palmeira e durante 15 dias o divertimento dos meninos foi acompanhar de longe a construção daquele trabalho...” E não é que o Pedrinho queria tanto caçar um saci, que acabou conseguindo? Seguindo minuciosamente, é claro, as instruções do Tio Barnabé, que garantia:” – Pois, seu Pedrinho, saci é uma coisa que eu juro que “exéste”. Gente da cidade não acredita, mas “exéste”. E, finalmente, acompanhado pelo seu saci capturado, Pedrinho, transgredindo as ordens de Dona Benta, parte para a mata virgem dos seus sonhos. A descrição do sítio, da floresta, do sacizeiro e “do sacizinho do tamanho de um camundongo, já de pitinho aceso na boca e carapucinha na cabeça” é de uma “galanteza” encantadora. Pedrinho “regalou-se de contemplar o sacizete adormecido e ali ficaria horas se o saci o não puxasse pela manga.” Nós também, Monteiro Lobato, nós também. Já é com saudades antecipadas que somos forçados a sair desta magia, para não ultrapassar o número de caracteres estipulados para cada resenha.

LOBATO, Monteiro. O poço do Visconde. São Paulo: Brasiliense, 1982. E porque eternizado, depois de escrever “Reinações de Narizinho”, Monteiro Lobato quis agora ser moderno e escreveu “O poço do Visconde”. Aqui, o Visconde se põe a estudar geologia e segundo a Emília “já entende de terra mais que tatu”. Pedrinho, revoltado porque o petróleo não é encontrado nunca no Brasil, achou ser chegada a hora de abrir um formidável poço no pasto do sítio. Depois ficou pensando no assunto com os olhos nas andorinhas que desenhavam “riscos de velocidade” no céu azul. Neste livro, Monteiro Lobato reflete sobre, não só a questão da ciência e da tecnologia, mas também a questão ética, social e humana da exploração e utilização do valioso minério que existe dentro da terra. É claro que, seguindo todas as instruções do Visconde, o petróleo jorra no Sítio do Pica-pau Amarelo, mas não devemos nos esquecer também, de experimentar o método sugerido pela Emília, que consiste no seguinte: “-O tatu! Amarra-se um tatu pela cauda e pendura-se ele de cabeça para baixo no ponto onde queremos abrir o poço. Na fúria de fugir, o tatu vai furando, furando, até chegar no petróleo... –E aí? – Aí espirra – e a gente fica sabendo que deu no petróleo”. Neste ponto, Emília foi tocada para fora da varanda e as negociações entre Pedrinho e o Visconde puderam prosseguir.

LOBATO, Monteiro. Histórias da Tia Nastácia. São Paulo: Brasiliense, 1982. Neste livro, Monteiro Lobato, explica o que é folclore. “- Dona Benta disse que folk quer dizer povo; e lore quer dizer sabedoria, ciência. Folclore são as coisas que o povo sabe por boca, de um contar para o outro, de pais a filhos – os contos, as histórias, as anedotas, as superstições, as bobagens, a sabedoria popular, etc e tal.” E Pedrinho conclui que, como a Nastácia é o povo, caberá a ela a função de narrar as nossas histórias folclóricas. É de suma importância que o índice deste volume seja lido com muita atenção para se ter a idéia precisa da dimensão da pesquisa feita por Lobato antes de escrevê-lo. Nos serões, ouvindo as histórias, o pessoal do sítio faz suas interessantes e engraçadas observações ao final de cada uma delas e é desnecessário privilegiar ou comentar esta ou aquela. Além do mais encantamento é pra gente se inundar nele e não deitando falação sobre ele.

LOBATO, Monteiro. Histórias do mundo para as crianças. São Paulo: Brasiliense, 1982. E, foi então, que Monteiro Lobato ou Dona Benta (“em que ama disfarçar-se”) virou professor e começou a contar a história do mundo para crianças. A leitura minuciosa do índice é fundamental para a compreensão da dimensão desta obra, onde ele começa explicando a evolução do homem: “Répteis-Pássaros/Pássaros-Mamíferos/Mamíferos-Macacos/Macacos-Gente como nós.” E concluiu: -“Sabemos o que veio vindo desde o começo do mundo até nós. Mas quem poderá prever o que virá depois de nós? –Eu prevejo! – gritou Emília lá do seu caminho. – Depois dos homens virão as bonecas. Eu já sou uma amostra do que está para vir...” Décadas depois, os robots foram inventados, só pra provar que a Emília mais uma vez tinha razão...

LOBATO, Monteiro. Geografia de Dona Benta. São Paulo: Brasiliense, 1982. E, depois, que a emérita dona Benta, explicou a Lei da Gravitação, temos o seguinte comentário: “-Ora, ora! – exclamou Pedrinho. – Tão claro e simples, e eu pensei que fosse um bicho de sete cabeças. Só, só, só isso? – Só, meu filho. Todas as coisas da ciência são simples quando as conhecemos. – Sempre que a senhora explica nós entendemos muito bem; mas quando os outros explicam, ficamos na mesma. – É que só explico o que sei. Muitas criaturas se metem a explicar o que não sabem – por isso ninguém as entende. Como seria possível entendê-las se elas mesmas não estão se entendendo?" Como o público-alvo desta Bibliografia são os professores da rede estadual e municipal e os mediadores de leitura da rede de Bibliotecas Infanto-Juvenis, gostaríamos aqui de fazer um apelo a estes: reflitam, reflitam e reflitam sobre esta verdade acabada, que Dona Benta com tanta sabedoria, acaba de dizer. Um segundo apelo, é claro, é no sentido de incentivar a leitura desta “Geografia” uma vez que as nossas escolas, infelizmente, estão repletas de professores que tentam explicar aquilo que eles mesmos não entenderam ainda.

LOBATO, Monteiro. A chave do tamanho. São Paulo: Brasiliense, 1982. Emília, na tentativa de fechar a chave da guerra, que já estava durando muito tempo, toma um pitada do super pó que o Visconde está fabricando, com a intenção de chegar na Casa das Chaves. Faz tudo direitinho, só que aplicando o método experimental de ir mexendo nas chaves uma por uma, acaba mexendo na chave do tamanho. Vê-se reduzida a um centímetro de altura e logo percebe que “a situação era tão nova que as suas velhas idéias não serviam mais”. O leitor acompanhará com interesse todas as adaptações que Emília e algumas pessoas mais espertas fazem para poder sobreviver num mundo agora imenso e o triste fim, daquelas mais arraigados aos antigos hábitos. A filósofa brasileira Marilena Chauí, declarou em público, certa vez, que este foi o livro que, em sua infância, influenciou-a ao ponto dela querer ser o que ela é hoje.
Tomando cuidado para não cair em saudosismo ou moralismo exagerados, nos resta lamentar profundamente que os nossos escolares de hoje não estejam mais indo passar as férias no velho, querido e bom Sítio do Pica-pau Amarelo. Tomando cuidado também para não cair em exasperações e revoltas exageradas, nos perguntamos, atônitos, que país é este, que governantes são estes e que educadores são estes, que sistematicamente ignoram Monteiro Lobato em nome de uma “modernidade” louca, burra e desumana, que estamos sendo obrigados a engolir desde a Proclamação da República.

LITERATURA COMENTADA [Coleção] Monteiro Lobato. São Paulo: Abril Educação, 1981. Conteúdo: 1-Biografia. 2-Cronologia biográfica. 3-Obras do autor. 4-Textos selecionados. 5-Panorama da época. 6-Cronologia histórico-literária. 7-Características do autor. 8-Verificação dos conteúdos. 9-Exercícios de fixação. 10- Atividades de criação. 11- Bibliografia comentada. 12-Índice. Antes de mais nada, é preciso que se diga que a Coleção “Literatura comentada”, encontra-se à disposição dos consulentes em todas as bibliotecas da Rede de Bibliotecas Infanto-Juvenis e Públicas do Município de São Paulo. Sua leitura é altamente recomendada para estudantes de colegial e leitores de uma maneira geral.
Neste volume sobre Monteiro Lobato a “Biografia” é feita por Ruth Rocha, o “Panorama da época” por Ricardo Maranhão e a “Seleção de textos, introduções, notas, cronologias, características e exercícios” por Marisa Lajolo. O critério de qualidade fica assim, desde logo, estabelecido. E, desta forma, consideramos que nada mais temos a declarar, a não ser reforçar vivamente a leitura deste livro e desta Coleção.