Olhando esse panos, essas cores, esses brilhos, essas máscaras, essa alegria insistente que pula, saltita, nos pega pela mão e nos cochicha baixinho no ouvido, que todos fazemos parte de uma mesma raça, a humana, eu me lembro que uma vez escrevi uma coisa assim:

Qual é a cor do blues?
Qual é a dor do blues?
E penso agora:
Qual é a cor dos meninos de rua?
Qual é a dor dos meninos de rua?
De que rara qualidade é essa dor, que se transforma tão generosamente em casas repletas de cores, em corações rublos de amor, em laços, em árvores, em ônibus, em flores?

O blues, sem dúvida, é um lamento, uma exposição das dores com uma força, uma disposição e uma beleza, que nos levam a perguntar qual é a cor de Deus.
Qual é a cor da alma?
Alma, aquilo que anima, aquilo que gera o movimento.
Não o movimento desordenado e aturdido, mas o movimento das ondas do mar, que incansavelmente, vão e vêm, vêm e vão. Há coisas redondas por excelência, como o verso que me ocorre agora:
“Auriverde pendão de minha terra que a brisa do Brasil beija e balança.”

Que Brasil é esse?
Que Brasil somos nós?
Que Brasil vamos escolher ser?
Que Brasil é esse, que não escuta a mensagem que esses panos e essas cores nos trazem?

Texto de abertura de exposição de trabalhos de meninos de rua, na Biblioteca Monteiro Lobato em outubro de 1994.

Que Brasil é esse que não constrói casas coloridas, com gerânios nas janelas, para esses meninos de rua, sem paredes, sem teto, sem abrigo, sem travesseiros e sem ursinhos de pelúcia?
Que Brasil é esse que separa os seus filhos em nossos e na categoria outros?
Que Brasil é esse que não cumpre as próprias leis que promulga?
No limite de nossos sonhos, o que desejamos com esta exposição que ora lhes apresentamos, é que o Estatuto da Criança e do Adolescente seja lido, debatido, divulgado e executado.

O que esperamos é que cumpra-se a lei, para que possamos voltar para casa, tomar uma sopa quente de ervilhas com bacon, usufruir de lençóis limpos e perfumados e olhar nos olhos de nossos filhos com a certeza de saber que tudo que desejamos a eles, desejamos também aos nossos meninos de rua.

Sylvia Manzano
08/10/1994