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Para as crianças da Érico
Veríssimo
Meu último encontro no projeto
"450 encontros na Paulicéia Desvairada: O Escritor nas Bibliotecas
"foi na Biblioteca Érico Veríssimo. A bibliotecária
chefe, Patrícia Marçal Frias, desenvolve um projeto muito
interessante com a chefe da Biblioteca José Paulo Paes, a Marta
Nosé Ferreira. As crianças que participavam dos encontros
trocavam cartas entre si e pediam aos escritores que também escrevessem
uma, para que, mais tarde, elas respondessem.
Esta foi a carta que escrevi.
São Paulo, 11 de novembro de 2004.
Oi crianças,
Pelo menos uma coisa nós já temos em comum: vocês
gostam de escrever e de receber cartas; e eu também. Eu já
escrevi tanta carta em minha vida que, se colocasse uma ao lado da outra,
a fila chegaria ao Japão.
HEHEHE... Não acreditem nunca no que diz uma escritora: ela pode
estar inventando.
Mas uma coisa é verdade: o meu primeiro livro publicado, "Carta
Para Carolina", é uma carta que eu realmente escrevi para
minha sobrinha a Ana Carolina, quando ela ainda tinha apenas 4 anos de
idade.
Achei que ela não ia entender nada do que dizia e a carta foi parar
numa gaveta, onde ficou por longos anos da minha vida.
Acabou virando livro, sendo publicada por uma editora e recebendo uma
bela ilustração, que vocês tão bem souberam
interpretar em seus desenhos também.
Adorei os finais da história que escreveram e me deram.
Vocês foram muitos generosos, pois colocaram não só
peixes, mas também outros frutos do mar pra eu comer, quando estivesse
bem cansada de tanto remar contra a maré.
Vocês sabem o que é remar contra a maré?
Então, se não sabem, perguntem para as simpáticas
professoras de vocês, que elas saberão responder.
Uma delas, negra e muito formosa, me disse (vocês não ouviram,
foi quase um segredo) que quando ela era pequena e morava em São
Carlos, a mãe mostrava pra ela o mapa de São Paulo e percorria
com os dedos o rio Tietê, dizendo que um dia ela iria conhecer aquele
rio.
Quando ela veio pra São Paulo e finalmente conheceu o rio Tietê,
foi uma emoção muito grande.
Mas, dizia ela, o que ela ainda não sabia no ano passado, ao participar
de um curso onde um livro da escritora Sylvia Manzano foi analisado, é
que no ano seguinte viveria a grande emoção de conheçer
Sylvia Manzano em pessoa.
Eu ando muito triste, embora a vida continue a eu tenho gostado muito
de estar hoje com vocês, receber os desenhos e os textos que me
fizeram e ouvir coisas tão bonitas como essa que a professora me
disse.
Estou triste porque a Marta Suplicy perdeu a eleição aqui
em São Paulo e eu gosto muito dela, principalmente porque nenhum
político fez tanto pelas crianças quanto ela, sobretudo
crianças mais pobres, as que moram nos bairros mais violentos e
mais carentes da cidade.
Foi lá que la construiu os CEUs e ela pretendia que nunca mais
um menino ou menina desta cidade precisasse ir catar lixo para poder ajudar
os seus pais no sustento da família.
Talvez, dirão alguns, eu não devesse falar em política
com vocês.
Talvez eu devesse falar de estrelinhas, de florzinhas, de gnomos, de fadas
ou de bruxas.
Acontece que hoje em dia, pela primeira vez na minha vida, a realidade
me interessa muito mais que a ficção.
Não entenderam? As professoras explicarão.
Tem muita coisa que a gente não entende mesmo, mas conforme vai
crescendo vai ficando tudo claro.
Ao contrário desta noite que está cinza, fria e chuvosa,
o céu via ficando azul e estrelado.
Eu aqui em minha casa, martelando no computador, ainda posso ver os olhos
de vocês brilhantes, muitos brilhantes.
Não deixem nunca que esse brilho se apague.
Vai ser difícil, mais a vida, já é bom que vocês
fiquem sabendo desde cedo, não é fácil mesmo.
Mas vamos tocando o barco, não é?
Vamos equipando o barco, vamos aprendendo cada vez mais a navegar e a
não deixar que ninguém mais, nunca mais, apague a nossa
história.
Sylvia Manzano é escritora e autora, entre outros livros, de "Carta
Para Carolina"
Crônica retirada da Revista Cultura Dia-a-Dia de
Dezembro 2004/Janeiro 2005 - N° 41
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