Minha mãe
e seu colar
de pérolas
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Tenho uma foto ampliada de minha
mãe que mandei enquadrar e coloquei na parede de casa. Ela usa
um lindo colar de pérolas, uma volta bem grudada no pescoço
e outra mais comprida, caindo no colo, em cima de um vestido branco que
aprecia ser de seda com uns bordados brancos também. Ela era muito
chic e vaidosa, mas, depois de casada, acabou perdendo essa vaidade.
Quando eu nasci, ela tnha 37 anos e andava sempre com uns vestidos remendados
na barriga. Explica-se: estava sempre no tanque, lavando roupa, e molhava
muito a parte da barriga. Os vestidos rasgavam naquele lugar e ela colocava
uns remendos de outra cor. Eu morria de vergonha, quando minhas vinham
na minha casa. Quando se é adolescente, a gente tem vergonha até
da própria sombra.
É depois - muito depois - que as emoções se assentam,
refinam, purificam, e a gente começa a perceber que mãe
maravilhosa foi a nossa. Até que a memória revistada (tantas
vezes, no meu caso) traz de novo aquelas emoções perdidas,
aquela raiva incontida e não dita, aquela vergonha enrustida. Depois
voltam as boas recordações, e ela passa a ser a melhor mãe
do mundo, de novo. Meu irmão, o Memau, sempre escrevia nos presentes
que dava para ela no Dia das Mães: " Para a melhor mãe
do mundo", com uma convicção que me fazia invejá-lo.
Neste último carvanal, me lembrei muito dela. Eu passava todos
os carnavais em minha terra natal e ficávamos atéde madrugada
assistindo aos desfiles das escolas de samba. Como ela sempre acordava
às 6 da manhã, qualquer que tenha sido a hora em que fora
dormir, ela assistia - já assistia - já iniciando o preparo
da macarronada, cujo molho ficava duas horas aprurando no fago - ao desfile
das últimas escolas de samba, e quando eu acordava, falava entusiasmada
de algumas de que tinha gostado. Uma vez ela gostou muito de uma escola,
que era do Martinho da Vila. O nome não me recordo, mas lembro
que a escola foi campeã naquele ano.
Eu me orgulhava de seu gosto musical. Com ela, eu - que criticava até
minha sombra, naquela época - concedia assistir ao Programa do
Chacrinha, e me lembro quando ela dizia: "Atravessou!". Um minuto
depois o Chacrinha buzinava, e eu ficava pensando o que será que
queria dizer atravessar. Eu perguntava, claro. Ela explicava, claro. Mas
eu nunca conseguia entender. Meu gosto musical ia sempre para as palavras,
o som servia apenas de suporte para que elas (as palavras) existissem.
Ela tocava bandolim em sua mocidade, adorava música e assistia
televisão muito mais que eu, naquela época. Nós acompanhávamos
pela tevê os festivais da Record, e eu preferia sua companhia e
seus comentários aos de qualquer amigo meu. Ela amava Machado de
Assis, lia os jornais de cabo a rabo e adorava poesia.
Gostou muito quando apareceu a Cora Coralina, e foi com muito prazer que
dei a ela todos os livros que a poetisa goiana publicou. Hoje, com este
céu azul e este adorável vento balançando as folhas
das "minhas" árvores, eu fico pensando, com uma tristeza
boa de se sentirde, como é bom acreditar que existe um céu
para onde vão as mães, quando morrem. De lá elas
ficam olhando pra gente, nos acenando e perdoando por termos tido tanta
vergonha de seus vestidos com remendos de outra cor na barriga. O.k. mãe,
o.k., mas precisava ser remendos de cores tão contrastantes?
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