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Um poeta brasileiro chamado Olavo Bilac, que viveu de 1865 a 1918, dizia: “Criança,
E hoje, em 1992, eu digo: Criança, O teu país é um país diferente. Ele começou diferente, porque quando aqui chegaram os descobridores, já era habitado por índios, espalhados de norte a sul e de leste a oeste do território nacional. Para os descobridores portugueses, que vinham de uma cultura muito cheia de regras e de verdades estabelecidas, os índios foram vistos como selvagens e primitivos. Porque andavam nus, viviam no meio da mata, pintavam o corpo com um colorido vibrante, acreditavam em deuses da natureza, não conheciam a leitura, nem a palavra escrita e tinham uma organização política e social muito especial e particular, foram considerados incultos para os europeus, vindos do que se costuma chamar de berço da civilização. Pois bem. Quinhentos anos são passados. Muitos antropólogos, sociólogos e estudiosos começaram a conviver com esses povos da floresta e nos trouxeram informações valiosas sobre eles. São informações que precisam ser divulgadas, para que as pessoas e as nações compreendam porque certos comportamentos deles são fundamentais para o restabelecimento ecológico do nosso planeta, a Terra. Equilíbrio ecológico significa, trocando em miúdos, a relação que o homem mantém com a natureza. O modo como ele usa os bens e as riquezas infinitas que a natureza nos dá: os peixes, os animais, as plantas, os frutos, as raízes, os vegetais, as flores, o mel que as abelhas fabricam, os minérios, o ouro, as pedras preciosas e o petróleo que é ao mesmo tempo o jorro de vida mais generoso de todos e o motivador de guerras mais poderoso do planeta. Pois bem, repito, quinhentos anos depois estamos começando a compreender que os índios têm uma relação muito saudável e bonita com a natureza. Eles nunca caçam além do suficiente para a própria sobrevivência e não consideram que a terra sé deles, mas que eles é que pertencem à terra. Desta foram, nas roças que eles cultivam, o ciclo da terra é respeitado: a época do plantio, a época da maturação e a época da colheita. Mudam a roça de lugar, quando julgam que é preciso dar um descanso para a terra, para que ela não fique exaurida e sem a possibilidade de produzir mais nada. Os adultos ficam de cócoras, quando conversam com as crianças para melhor ouvi-las e entendê-las. Através do contato íntimo mantido com a natureza, adquiriram segredos que não revelam a ninguém, com medo que a tecnologia de posse dessa sabedoria, use dela de forma indevida, desonesta e desumana. Para finalizar, proponho a vocês uma dupla lição de casa: 1- uma visita à exposição integrada “Índios no Brasil” no Parque do Ibirapuera – Prédio da Fundação Bienal até o dia 27 de julho. Mas antes disso, perguntem, perguntem, perguntem. Na escola, nas bibliotecas, nas suas casas, nas igrejas, nos cursos que vocês freqüentam, procurem saber afinal: porque é que os povos da floresta são assim tão importantes para o restabelecimento ecológico do planeta, porque a Amazônia é o lugar mais privilegiado do mundo, porque alguns políticos têm tanta preocupação em esconder da população essa importância e, sobretudo, porque as crianças ainda são sempre as últimas a saber de tudo. Se depois dessa pesquisa feita, vocês não conseguirem resultados satisfatórios, procurem mais de perto os antropólogos, as instituições e os grupos de estudiosos que se interessam sinceramente por essa questão. Peçam a eles que lhes contem mais sobre essas pessoas encantadas que vivem no coração da floresta, no coração do Brasil, no coração de si mesmas e que buscam sempre um significado humano para suas ações.
04.07.1992 |
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